terça-feira, 29 de maio de 2012

Ciclos Sagrados Femininos

- Em julho do ano passado escrevi para um site da qual era moderadora sobre a retomada da sacralidade da menstruação. Trazendo o texto para cá, inauguro mais uma aba de temas no bloguito: vamos falar sobre a 'Lua Vermelha' e os Ciclos Sagrados do Feminino!

 
No mundo de hoje muito se comenta sobre os papéis desenvolvidos por todos na sociedade, no trabalho, em casa, em nossas vidas como um todo. Muita coisa mudou e muitos assuntos voltaram a ser tema de debate e discussão. Atualmente, muito se fala do papel da mulher e do retorno ao "Sagrado Feminino". Estes temas são de grande importância para a comunidade pagã, principalmente àquelas mulheres que hoje percebem que estar em harmonia com seus ciclos traz um grande aumento de poder pessoal e um melhor entendimento sobre si mesmas.

Nos últimos anos, temos visto o crescimento de campanhas de marketing na internet e através de depoimentos sobre como "viver sem menstruar" é uma "verdadeira conquista da mulher moderna". Apregoam estas mesmas campanhas que é um direito soberano das mulheres pararem de sofrer com a TPM, não ter cólicas, não inchar, nem ter seios doloridos, ter uma pele sem acne... Em resumo, não há motivo nenhum pelo qual qualquer mulher moderna continuaria a "sofrer" com todos estes entreveros da menstruação. Para os que defendem a técnica, ela é tão simples que pode ser interrompida a qualquer momento, sem ônus algum para a usuária do tratamento. Seguindo raciocínio semelhante, porém ainda mais radical, existem hoje tratamentos onde adolescentes tomam hormônios masculinos para retardar a menarca, visando ficarem mais altas - tratamento também este, com o aval de médicos especializados no assunto. Vendo essa moderna forma de lidar com algo tão natural, a pergunta que surge é: para onde se escoou a sacralidade da menstruação?

Opiniões de quem entende do assunto
 

O tema "Sagrado Feminino" é um tema complexo e recorrente no universo feminino e pagão, como aponta Shakti Shala (foto à direita), professora de dança oriental há 14 anos e que desde 1994 se dedica a estudar e aplicar esta sacralidade na arte da dança. "Ao longo da vida, nossas mágoas se acumulam não apenas na alma mas também no corpo, criando couraças, tumores. Por séculos, o Feminino carregou em seus quadris o peso de repressões e culpas, mutilando, encolhendo e esquecendo sua verdade, mas o reencontro com seu sagrado e sua força mais essencial é um chamado que se aproxima crescentemente hoje e se constitui numa chave definitivamente transformadora."

Bom é saber que inúmeros círculos femininos estão sendo formados hoje para que as mulheres possam compartilhar as suas experiências e vivências, honrando assim a natureza sagrada que nelas se encontram. Bom é conhecer movimentos como a "Campanha da Segunda-Feira Vermelha" que em todos os anos - e no Brasil, desde 2008 - conclama as mulheres a exaltarem seu Eu Feminino através da menstruação. 

Por se tratar de um momento realmente sagrado, muitas religiões ao redor do mundo celebram a menarca de uma mulher e tratam sua menstruação como algo normal até que ela cesse naturalmente. Índios, xamãs, pagãos e muitos outros possuem rituais de celebração dos estágios menstruais femininos - menarca, ciclos normais e a menopausa - como parte de sua liturgia, pois percebem que isso é algo que existe e deve ser respeitado. Segundo nos conta Tatiana Menkaiká, nas tradições nativas norte-americanas, por exemplo, há as "Tendas Negras" ou "Tendas da Lua" para que as mulheres da tribo possam se recolher em seu período menstrual. Tatiana - que é terapeuta xamânica, taróloga, e pesquisadora dos sistemas de medicinas tradicionais e ancestrais - nos conta que as tendas são usadas no momento do recolhimento sagrado de contemplação, onde se honram os dons recebidos, compartilham visões, sonhos, sentimentos, conectam-se com as ancestrais e sábias da tribo. Também são recebidas nas tendas as meninas em seu primeiro ciclo menstrual para que conheçam o significado de ser mulher. 

Para a Wicca que tem na figura da Grande Deusa um de seus pilares, esse reencontro com os ciclos é algo bastante abrangente. Sianna Aset (em pé, na foto ao lado) sacerdotisa do Coven Amantes de Ísis, nos conta que em seu grupo dá-se "grande importância para os Mistérios Femininos e Masculinos, honrando nossos ciclos internos em sintonia com os ciclos da Terra, que se expressam através das Estações do Ano". Existe no coven um trabalho voltado para esta sacralidade, onde os "membros são preparados através de treinamentos direcionados para essa prática tão importante e sagrada, afinal nossas ancestrais honravam seu sangue e os homens eram preparados e iniciados nos mistérios da vida adulta."

 O sangue menstrual como instrumento mágico

Desde o início, o sangue menstrual era mais do que apenas um indicador do ciclo de fertilidade de uma mulher. Na Antigüidade, o ciclo menstrual da mulher seguia as fases lunares com tanta precisão que a gestação era contada por luas e os mistérios do sangue sempre estiveram associados aos poderes de magia feminina: antes dos avanços científicos e o entendimento biológico da menstruação, o ciclo mensal era visto como algo mágico porque representava a capacidade que a mulher tinha de sangrar sem com isso adoecer. Como os povos primitivos viam o sangue como algo diretamente ligado a vida e a morte, o fato das mulheres sangrarem mensalmente sem terem sua saúde prejudicada era motivo de espanto e admiração, reafirmando assim a sacralidade da mulher, a qual todos honravam.

Através da longa história da magia, o sangue menstrual já foi usado de diversas maneiras. Nas religiões matrifocais, era um portal tanto para a regeneração física como para a transformação espiritual. Servia também para cura, uma vez que o fluxo de sangue menstrual tende a absorver energias diversas. Mulheres em seu periodo menstrual podiam absorver a energia dos outros e aterrá-la através de seu próprio sangramento físico. Uma vez que o sangue fosse lançado à terra, a energia seria neutralizada e a cura de fato, poderia ter início. Outros relatos afirmam que o sangue menstrual era também utilizado para fertilizar as sementes para o plantio, passando a essência da vida a elas. Campos eram por vezes, borrifados com uma mistura de água e sangue menstrual para estimular o crescimento das plantas. 

Hoje, algumas linhas filosoficas e escolas mágicas defendem o uso do sangue menstrual para sacralizar e abençoar instrumentos mágicos, aumentando-lhes o poder e dando uma assinatura pessoal aos feitiços. Os ciclos são exaltados novamente em algumas tradições, onde existem grupos internos de estudos e onde são feitas reconsagrações do ventre, ritual este que visa auxiliar a mulher pagã de hoje a se reconectar com seu Eu Feminino mágico, pois o poder do ventre é o poder criador da Deusa que vive em cada mulher. Sendo reconhecido, honrado e sacralizado, esse poder "gera" mulheres plenas, livres e que se relacionam com os outros por inteiro,  o que traz grande aumento do poder pessoal.

A sacralidade do ciclo mentrual, hoje


Hoje podemos voltar a viver a sacralidade do ciclo menstrual com mais consciência e menos complexos. Para isso, é necessário criar um espaço e um tempo dedicado em que a mulher esteja focada em si mesma, aquietando o coração e a alma. Mesmo sem poder repetir o exemplo das suas ancestrais que se refugiavam nas tendas para um periodo especial de contemplação e oração, a mulher moderna deve respeitar sua vulnerabilidade e sensibilidade durante a "sua lua vermelha". Ela pode e deve diminuir seu ritmo, evitando sobrecargas e ambientes carregados, não se expondo ou se desgastando emocionalmente. Ela deve encontrar meios naturais para diminuir o desconforto, o cansaço, a tensão ou a agitação neste momento sagrado. Essas precauções são extremamente úteis e acabam auxiliando também no aspecto físico: diz-se que estar verdadeiramente harmonizada com as "bençãos da mãe-lua" nos permite passar por este período sem sentir tantas dores, cólicas e demais incômodos que possam vir com o período.

Shakty Shala nos lembra: "Quantas mulheres atualmente deixaram de observar os ciclos do próprio corpo? Quantas deixaram de conectar-se com as forças da natureza, deixaram de lado a riqueza desse período de introspecção, recolhimento e contemplação de si mesmas? É o momento de se perguntar "quem sou", observar-se por completo, saber se está se respeitando ou não de alguma forma." Este é momento de conhecer a si mesma como um todo e permitir-se aprender a amar, compreender e assim curar a si e as outras mulheres que a cercam.

Saiba mais sobre:
Shakti Shala - http://www.dancadosagradofeminino.com.br
Tatiana Menkaiká - http://www.terramistica.com.br
Coven Amantes de Ísis - http://covenamantesdeisis.webnode.com.br
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